
Não há quem não aprecie um bom jogo de palavras. A entrega ao conhecido aspecto manhoso da língua portuguesa. Dizem que é muito traiçoeira. Dada a segundos sentidos e dúbias interpretações. Soa-me a personalidade feminina. Talvez tenha sido por isso que os antigos lhe atribuíram o género. A língua. Feminina. Traiçoeira. Manhosa.
Agora que chegámos à época em que a folha cai e a transpiração começa a dar lugar ao arrepio, não tardará que se comece a propagar o habitual "isto está bom é para estar com ele entalado"! Ah, aquele segundo sentido confortável que tanto gostamos! Com o corpo entalado nos lençóis devido ao frio que está, pois claro... Não sou praticante desta modalidade inofensiva, qual garoto traquina a dizer uma malandrice e a ficar corado com o declarado sentido duplo daquilo que acabou de dizer! Prefiro outros jogos de semântica! Quando digo que estava bem era "com ele entalado", na verdade, a ideia que estou a tentar transmitir é que existe uma sensação de conforto muito grande em ter-se um bom par de pernas femininas entrelaçado à volta da cintura, enquanto o constante vai-e-vem pélvico suaviza o ardor causado por dentes e unhas rasgando a pele! Mesmo que seja um par de pernas moderadamente bom, já gostaria de "estar com ele entalado"! Aos diabos com a convenção politicamente correcta! Mesmo que fossem umas pernas amputadas a meio da coxa, que pertencessem a uma pessoa que se deslocasse numa daquelas grades com rodinhas que os mecânicos utilizam para se meterem debaixo dos carros, eu certamente iria apreciar "estar com ele entalado"!