terça-feira, 5 de maio de 2009

foreclosure of a dream



Quando era um indivíduo folgado que dedicava algum do meu tempo à leitura, cruzei-me com um artigo, uma tese, uma teoria, seja o que bem for, que consumiu não só a minha atenção, como também o meu pensamento! O seu objecto de estudo era simples, apesar da complexidade do seu mundo e razão: os sonhos! Para ser mais específico, não só a capacidade individual possuída por todos nós de criar os sonhos que nos acompanham durante o sono mas, principalmente, a quase certeza de que sonhamos todas as noites invariavelmente, mesmo quando não temos qualquer memória de o ter feito! Para explicar esta parte da questão, os autores do referido texto (sinceramente já não recordo onde me cruzei com ele), utilizaram a analogia do gravador que ao longo da noite, em períodos de tempo completamente aleatórios, se vai ligando e desligando e assim gravando, ou não, os sonhos e pesadelos que nos ocorrem enquanto estamos de olhos fechados a tentar recuperar forças para o dia seguinte.
Tenho a perfeita noção que sonho com bastante frequência. Muitas vezes quando ainda estou acordado. Na verdade, muito do meu tempo é passado nesse exercício contemplativo de imaginação e magia pessoal, não que esteja continuamente a sonhar com o que possa não existir, mas sim a tentar compreender tudo aquilo com que me deparo quase todos os dias. Foi nisto que deu ser filho único com uma imaginação activa, uma mente inquisidora e largo acesso a uma boa dose de livros e muitos, muitos documentários! Ainda hoje continuo a alimentar este ser com a mesma ração de antigamente, se bem que tenho reduzido na dose de leituras recomendadas…
Para além dos inúmeros sonhos que tenho habitualmente, existem também bastantes pesadelos, como é óbvio. Se bem que, ligeiramente menos que verdadeiros pesadelos, acabam por ser mais parecidos com pequenos filmes de terror ou pequenos episódios de violência contida ou outros ainda que, à falta de melhor definição, são meramente estranhos mas que dariam uma boa curta-metragem para o David Lynch! Assim de repente, só para terem uma pequena ideia, tenho vagas memórias de um desses exemplos de bizarria, que incluiu um grupo de Leste com ligações ao crime organizado, mas que apenas pretendia uns trocos que houvesse à mão e uma boa oportunidade para dar umas gargalhadas, uma casa assombrada (inicialmente pelos amigos de Leste, mas depois por uma alma perdida e em forte carência de companhia) e palha! Uma imensidão de palha! Quantidade de palha suficiente para conseguir insinuar-se em locais da minha anatomia que eu julgava nunca sentir o que fosse a insinuar-se! De forma voluntária, pelo menos… Não consigo perceber o significado deste improvável ensemble, mas sinto a mesma dificuldade em entender muito do trabalho do senhor Lynch…
Por muitas ocasiões anteriores alimentei o desejo de que existisse uma forma de registar esses sonhos, como se o tal gravador da teoria fosse realmente palpável e estivesse instalado na mesa de cabeceira a meu lado, registando todas as aventuras em que Morpheu já me convidou a participar, todo o romance que experimentei enquanto a coberto daqueles lençóis de Inverno e que muitas vezes me fizeram despertar com uma sensação de humidade diferente do normal e, até mesmo, todas as ocasiões em que dei por mim em queda livre de alturas monstruosas, a tentar escapar a golpes de lâminas afiadas ou evitando que mulheres idosas semelhantes a feiticeiras me conseguissem morder as mãos enquanto corria nu por uma rua prestes a ficar deveras movimentada!
Não tenho o gravador. Não existe semelhante aparelho. Mas tenho as imagens e um pouco das sensações que a minha memória conseguir guardar e é com isso mesmo que vou alimentar o tal gravador que não existe, mas que pode ser sonhado e se os sonhos não podem ser gravados, podem pelo menos ser escritos…

suffer the children



Ando a experimentar um novo género de sofrimento diário. Uma forma diferente de fazer com que os meus dias, em diversas ocasiões fáceis de serem levados, mas muitas outras com um elevado índice de vão-se-todos-foder, tenham aquela aura irritantemente perniciosa de como quem diz: “estava capaz de me tornar numa daquelas pessoas cuja foto aparece nos noticiários depois de ter perpetrado um massacre violento num infantário durante a hora da sesta, com um maçarico de acetileno aceso numa das mãos e um moto-serra em plena velocidade assassina na outra, enquanto gritava com todo o vigor e a plenos pulmões “vou acabar com a vossa raça, malditos adoradores de plasticina e gomas de framboesa!”.
Não tenho absolutamente nada contra as pobres crianças! Nem sequer são elas que me andam a atormentar. Coitadinhas. Em abono da verdade, um dos sentimentos que mais me invade quando as vejo a correr por aí fora à procura de um pretexto qualquer para esfolar um joelho ou subir acima de uma árvore e tentar partir um braço na queda, é a inveja de não poder andar ao lado deles a correr e a jogar à bola, a partir vidros só porque sim e a chamar ‘gordo’ aos barrigudos e caixa-de-óculos aos tipos que, como eu, usam óculos e são barrigudos… Existe uma beleza qualquer que emerge desta frontalidade infantil e da falta de qualquer tipo de pudor que os possa impedir de serem cruéis sem saber que o estão a ser. A ingenuidade que apaixona qualquer pessoa por aquela pureza que se inveja e se deseja. Quem me dera ser criança novamente…
A minha cruz não são as crianças, mas sim os outros. Os adultos! O meu calvário é não poder escudar-me na imunidade daquela frontalidade infantil e fazer saber a alguns desses adultos que o seu prazo de validade está a esgotar-se! Não interpretem erradamente o que estou a querer dizer! A intenção não passa por dar início à contagem decrescente da ampulheta até ao ponto em que se acenda um maçarico ou se comece a brandir um moto-serra e se vá procurar uma multidão para mutilar! Nada disso. Sou uma pessoa do bem. Sou da paz. Consigo alimentar uma imaginação plena de cenários mórbidos, sádicos, ricos em blasfémias e heresias, mas no fundo, sou bom rapaz. Gosto de um pôr-do-sol no Verão e de beber chá aos domingos…
Mas seria engraçado colocar todos esses caducos a caminhar na prancha, principalmente agora que a pirataria está tão na moda, apenas para aferir se eram merecedores de uma segunda oportunidade ou se, por outro lado, nem por isso. A verdade é que muitos deles estão a mais! Eu, se calhar, também estou. Se for demasiada a prática do orgulho na inutilidade da vida então, meus amigos, estamos lá a preencher as quotas estabelecidas para tudo quanto seja verbo de encher, peso-morto ou lastro!
Esgotam-me! Esgotam-me, porque todos os dias vão levando um bocadinho de mim. Levam-me tudo e estão dispostos a não me deixar nada. Nem um pouco da minha paciência, nem uma réstia da minha boa-vontade, nem um resumo da minha antiga alegria.
Cansam-me estes adultos de encher…