
Ando a experimentar um novo género de sofrimento diário. Uma forma diferente de fazer com que os meus dias, em diversas ocasiões fáceis de serem levados, mas muitas outras com um elevado índice de vão-se-todos-foder, tenham aquela aura irritantemente perniciosa de como quem diz: “estava capaz de me tornar numa daquelas pessoas cuja foto aparece nos noticiários depois de ter perpetrado um massacre violento num infantário durante a hora da sesta, com um maçarico de acetileno aceso numa das mãos e um moto-serra em plena velocidade assassina na outra, enquanto gritava com todo o vigor e a plenos pulmões “vou acabar com a vossa raça, malditos adoradores de plasticina e gomas de framboesa!”.
Não tenho absolutamente nada contra as pobres crianças! Nem sequer são elas que me andam a atormentar. Coitadinhas. Em abono da verdade, um dos sentimentos que mais me invade quando as vejo a correr por aí fora à procura de um pretexto qualquer para esfolar um joelho ou subir acima de uma árvore e tentar partir um braço na queda, é a inveja de não poder andar ao lado deles a correr e a jogar à bola, a partir vidros só porque sim e a chamar ‘gordo’ aos barrigudos e caixa-de-óculos aos tipos que, como eu, usam óculos e são barrigudos… Existe uma beleza qualquer que emerge desta frontalidade infantil e da falta de qualquer tipo de pudor que os possa impedir de serem cruéis sem saber que o estão a ser. A ingenuidade que apaixona qualquer pessoa por aquela pureza que se inveja e se deseja. Quem me dera ser criança novamente…
A minha cruz não são as crianças, mas sim os outros. Os adultos! O meu calvário é não poder escudar-me na imunidade daquela frontalidade infantil e fazer saber a alguns desses adultos que o seu prazo de validade está a esgotar-se! Não interpretem erradamente o que estou a querer dizer! A intenção não passa por dar início à contagem decrescente da ampulheta até ao ponto em que se acenda um maçarico ou se comece a brandir um moto-serra e se vá procurar uma multidão para mutilar! Nada disso. Sou uma pessoa do bem. Sou da paz. Consigo alimentar uma imaginação plena de cenários mórbidos, sádicos, ricos em blasfémias e heresias, mas no fundo, sou bom rapaz. Gosto de um pôr-do-sol no Verão e de beber chá aos domingos…
Mas seria engraçado colocar todos esses caducos a caminhar na prancha, principalmente agora que a pirataria está tão na moda, apenas para aferir se eram merecedores de uma segunda oportunidade ou se, por outro lado, nem por isso. A verdade é que muitos deles estão a mais! Eu, se calhar, também estou. Se for demasiada a prática do orgulho na inutilidade da vida então, meus amigos, estamos lá a preencher as quotas estabelecidas para tudo quanto seja verbo de encher, peso-morto ou lastro!
Esgotam-me! Esgotam-me, porque todos os dias vão levando um bocadinho de mim. Levam-me tudo e estão dispostos a não me deixar nada. Nem um pouco da minha paciência, nem uma réstia da minha boa-vontade, nem um resumo da minha antiga alegria.
Cansam-me estes adultos de encher…
Sem comentários:
Enviar um comentário