quinta-feira, 18 de outubro de 2007

homens de boa vontade

No passado fim-de-semana perguntaram-me se concordava com os laureados com o Prémio Nobel da Paz deste ano! Esta frase de abertura, por si só, diz muito do tipo de debates em que me envolvo durante o fim-de-semana, período de tempo habitualmente reservado para entorpecer a massa cinzenta com doses elevadas de alcóol e alguns quilos de nicotina, daquela que prejudica gravemente a saúde dos que me rodeiam e que me pode trazer graves problemas na minha próxima gravidez...
Respondi imediatamente que não! Assim, taxativamente! Mai nada!
A razão prende-se principalmente com o facto de achar que aquela academia, a dos nórdicos, que decide quem merece ou não, não está longe de funcionar como tantas outras academias semelhantes que atribuem louvores, prémios e outros souvenirs diversos. É tudo político, é tudo jogo de interesses... A cerimónia até é bonitinha e as pessoas até aparecem bem vestidas, apesar dos tons monocromáticos da fotografia final, mas de que forma é que a influência do galardão em si se manifesta, após serem conhecidos os granjeados? Principalmente no que diz respeito ao Nobel da Paz? Bom, para sermos sinceros, na maioria dos casos, é bastante nula a importância da coisa, não é verdade?
No caso presente, não tenho nada a apontar ao Painel Intergovernamental da Alteração Climática das Nações Unidas (para os mais distraídos: também ganharam o Nobel da Paz juntamente com o outro americano!), até porque pouco ou nada conheço deles ou das suas iniciativas ou estudos, um pouco à imagem das restantes iniciativas ou estudos das Nações Unidas, que tendem para a ineficácia e para a figura de corpo presente. Quanto ao indivíduo americano, um tal de Al Gore, encaro este prémio apenas como mais um passo na sua carreira rumo à presidência americana. Porque, estimados, acreditem que é isso que vai suceder mais ano, menos ano...
Ainda não vi "An Incovenient Truth", que o senhor ajudou a lançar e a promover e que até ganhou um Óscar, atribuido por outra academia que é tudo menos isenta, apesar de achar que é meritório o facto de ter conseguido colocar o mundo a falar sobre o aquecimento global. Mas não acredito que ele esteja realmente preocupado com esse tipo de problemáticas. A sua digressão mundial de palestras não me ajudou a acreditar (cobrando elevados cachets e falando para plateias restritas construídas na base do convite, como foi o caso do nosso país, nem o seu envolvimento com o evento Live Earth me ajudou a acreditar. Nem este Nobel o vai ajudar a entrar no meu circulo de aceitação. Digo apenas que a campanha do senhor está a correr de vento em popa...


"Ó Desmond, já não se faz um Nobel da Paz como antigamente, ahn?"

A academia nórdica construiu por mérito próprio uma reputação duvidosa à sua volta que, não raras vezes, nos deixou abismados graças às suas escolhas e, com maior frequência, às suas não-escolhas, como será o eterno caso de Mahatma Gandhi que nunca foi galardoado com o Nobel da Paz (apesar de ter sido nomeado cinco vezes!), enquanto que a outros indivíduos muito menos dados a essas coisas da paz como Henry Kissinger (para os mais distraídos: este foi o senhor que autorizou os indonésios a invadirem Timor Leste), Menachem Begin, Cordell Hull, Yasser Arafat ou Yitzhak Rabin lhes foi dada a honra de figurarem nos anais da história como vencedores.
Exemplo idêntico na literatura, em que "monstros" publicados como Leo Tolstoy, James Joyce, Mark Tawin, Marcel Proust, Franz Kafka, Anton Chekhov ou Virginia Woolf nunca viram as suas obras ou o seu trabalho reconhecido com o Nobel literário, como aconteceu com o nosso 'espanhol' preferido, José Saramago.
Mas terá alguma influência no futuro este Nobel da Paz que o americano e o Painel Intergovernamental da Alteração Climática das Nações Unidas ganharam este ano? O melhor será perguntar a alguns vencedores do passado como Dalai Lama, que apesar do Nobel em 1988 continua a viver exilado e cuja nação (Tibete) continua esquecida pelo resto do mundo, como Shirin Ebadi (2003), defensora dos direitos humanos, especialmente das mulheres e crianças ou a Aung San Suu Kyi (1991), activista pró-democracia birmanesa (para os mais distraídos: aquilo agora chama-se Myanmar!), que continua em prisão domiciliária enquanto o seu país é governado por uma junta militar que tem assassinado monges budistas e fotógrafos desarmados... Na maioria dos casos, com ou sem Nobel, o carrocel continua e as alterações são invisíveis a olho nú...

Sem comentários: