Sabes que já estiveste aqui antes, és capaz de o sentir e estarias capaz de o jurar, se não fosse pelo desconforto que continua a roçar-te na pele, aquela sensação familiar de quem mergulha sem saber muito bem onde fica sem pé.
Sabes
que já aqui estiveste antes, mas não te lembras do que tiveste que fazer para
avançar e deixar tudo para trás. Já nem sabes quanto tempo aqui permaneceste. Não
te lembras se estás num destino ou numa paragem. Um apeadeiro no tempo? Aí
quase não tens tempo para nada. Nem sabes exactamente para que precisas de
tanto tempo. Para a paragem ou para o destino? Não será também cada uma dessas
paragens um pequeno destino para alguém? Talvez não seja o teu, aquele que
procuras, aquele que desejas. Mas pode ser o do nome que está ao teu lado. Não
és o único que deseja. Ainda que possas viajar sozinho.
O
desejo tem muitas caras e vive em muitos destinos diferentes. Responde também
por diversos nomes. Comporta-se como um criminoso em fuga, um passo à nossa
frente. O seu grande crime é levar-nos a acreditar que encontraremos ainda mais
do que procuramos no próximo destino, mas nunca nos revela que o que deixamos
para trás jamais voltará a ter o mesmo sabor. Maldito seja.

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