domingo, 24 de agosto de 2008

afinal em que ficamos?



Agora que finalmente as olimpiadas terminaram é altura de alguém me explicar convenientemente se, afinal de contas, fomos os maiores e saímos de lá com mais uma das habituais vitórias morais a que tanto nos habituamos a apreciar ou fomos uma daquelas vergonhas em que mais vale açoitar toda a gente que fez parte daquela comitiva, que é para ver se eles aprendem a não voltar a brincar com o orgulho de uma nação?
Se por um lado as expectativas eram elevadas, tendo em conta a qualidade dos nossos atletas e as posições que muitos deles ocupam nos rankings das respectivas modalidades, cedo se começou a notar que, se calhar, o mar de rosas que inicialmente se pintou, não era assim tão colorido quanto isso...

Muitas vozes prometeram medalhas e pontuações, tornando esta a melhor comitiva olímpica que alguma vez o nosso país teria enviado a uma competição desta magnitude. Voltamos para casa com uma medalha de ouro e outra de prata, graças aos esforços de Nélson Évora e Vanessa Fernandes. Tivemos um quarto lugar na vela, com Gustavo Lima a ficar a um ponto do bronze. Vários outros atletas ficaram pelo caminho, acabando o seu calendário em diversas posições, desde sétimos a trigésimo terceiros e por aí fora.

A minha confusão prende-se com os opinion-makers dos media, desde jornalistas a comentadores que, no espaço de alguns dias, fizeram desta comitiva uma espécie de montanha-russa de resultados, pois se num momento estávamos a caminho de uma olímpiada histórica para a nação lusa, no outro já se tratava de um exemplo de péssima dedicação e brio profissional, para voltar quase de imediato (após a conquista das referidas medalhas) a ser uma das melhores participações de que há memória!

Afinal em que ficamos? Aquilo correu bem ou nem por isso?

Houve quem se lamentasse do dinheiro contribuinte gasto por aqueles atletas, que teriam ido fazer turismo em vez de tentar o seu melhor e competir lado a lado com os melhores dos melhores. Houve quem dissesse que não se podem comparar as condições de treino e o investimento feito no desenvolvimento das modalidades que acontece nos outros países.
Mas vamos lá a ver uma coisa, não eram alguns dos nossos atletas campeões e vice-campeões, europeus e mundiais, das suas categorias? Não seria isso suficiente para deitar por terra a justificação de que somos os eternos coitadinhos, o país pequenino, que não tem condições ou logística desportiva para poder competir com as nações mais poderosas do desporto como o Zimbabwe, Uzbequistão e todos os demais tubarões das medalhas?

É certo que existem fundos oriundos dos nossos impostos que são desviados para o comité olímpico nacional, mas não sejamos dramáticos, pois os nossos atletas nem ganham tanto quanto isso às custas das suas modalidades. Se assim fosse, muitos deles não teriam necessidade de manter os seus empregos ou serem obrigados a gastar os seus preciosos dias de férias para envergar a camisola das quinas.

A infelicidade da participação nacional teve o seu aspecto visível na justificação que muitos atletas ofereceram para os seus resultados abaixo do previsto. Entre o caso mais mediático do pobre Marco Fortes que preferia ter ficado na caminha em vez de ir lançar o seu peso tão cedo e a perplexidade de Telma Monteiro por achar que as suas adversárias a estudaram com afinco para a poder derrotar, acabando também por deixar, à boa maneira portuguesa, uma palavrinha para os árbitros, houve também os casos de Jessica Augusto e Vânia Silva, a primeira porque achou que não valia a pena fazer a sua prova (5000 metros) já que o contigente africano iria ganhar certamente, a segunda (lançamento do martelo) porque não era muito dada àquele tipo de competições... Como?!? Só faltou mesmo dizer com todas as palavrinhas que “os outros correm muito, que têm sapatilhas mais caras e eu também gostava de ter umas assim, não vou porque o tipo do Gana me chamou cabeçudo, não posso competir pois só comi uma sandes de manteiga ao almoço e estou em fraqueza...”!

Foram, de facto, afirmações demasiado infelizes e justificações demasiado injustificáveis. Poucos foram os que afirmaram com total honestidade “Tentei, mas não consegui. Eles foram melhores que eu...”. No que a mim diz respeito, até dispensava bem o pedido de desculpas feito por Obikwelu, porque o rapaz não tem nada que pedir desculpa. Foi lá, competiu, tentou fazer o seu melhor. É disso que se trata... Competir. Tentar superar os nossos adversários. Mesmo que para isso tenhamos que os estudar, levantar cedo, correr em grupo. Mas temos que competir para saber se somos ou não dignos de envergar uma daquelas medalhas e ter o nosso nome ligado à história das olimpíadas pelos melhores motivos!

Não estou contra os atletas que foram a Pequim e ficaram aquém das expectativas. Eu não conseguiria atingir os mínimos que eles atingiram para estarem presentes. Para o fazer, ficaram à frente de muitos outros atletas. A sua classificação final, ainda que longe das medalhas, deixa-os à frente de muitos outros atletas. Foram infelizes em algumas declarações? Foram, sim senhor! Mas mais infelizes que eles foram todos os outros que, deste lado do mundo e muito longe de Pequim, se apressaram a rotular de vergonhoso e muito, muito fraquinha toda aquela experiência olímpica. O desconfortável hábito lusitano de alimentar a curta memória cria esse fenómeno do hoje és grande, amanhã és uma merda e no próximo fim-de-semana quero ter um filho teu, mas eu não sou grande adepto dessa modalidade. O incrível parece ser que, em comparação, ao mundo do futebol tudo se perdoa e pouco se critica, tendo em conta o sorvedor de dinheiro público e privado que representa e os resultados finais que, sejamos honestos, não têm mantido a nossa reputação nos lugares cimeiros de uma forma constante...



Parabéns aos que voltaram de medalha ao peito e aos outros, meus amigos, vamos esforçarmo-nos para fazer melhor para a próxima e tentar desenvolver um pouco mais de tacto nas opiniões que publicamente deixamos sair das nossas boquinhas... Está bem?

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