
Quando digo estas palavras faço quase sempre figas, pois tenho um receio desgraçado que isto me venha a acontecer um dia! É um daqueles medos que nos pode atormentar de uma forma, podemos dizê-lo, a roçar o desagradável...
Tenho um apreço enorme por este sentido, pelo prazer que me proporciona a cada dia que passa, em todos quantos já passaram e por todos aqueles que, eu sei, me vai ainda oferecer. Sem ele, mais do que não ouvir o indicador sonoro de uma passagem de nível sem guarda, seria impossibilitado de ouvir toda a música que ouço e toda aquela que espero ter oportunidade de escutar. É um apanágio meu. Quem priva comigo sabe disso. Gosto de ouvir música como se a minha vida dependesse disso. Mesmo quando não se está a ouvir música, eu ouço-a, pois tenho uma velha grafonola metida no crâneo, que nunca se cansa, nunca se gasta e está sempre a tocar um disco qualquer ou uma musiquinha porreiraça! Foi um bom negócio. Fiquei com ela em troca de uns neurónios que já não me faziam falta. Acho que foram aqueles que nos fazem compreender cálculos matemáticos e outras matérias semelhantes. Não me recordo muito bem...
Durante um determinado período quase arruinei por completo esta capacidade, este imprescindível sentido. Tinha a mania que era músico. Comecei por vestir a pele de pseudo vocalista. Mas não sabia cantar. Ainda hoje não sei. Mas sei grunhir que nem uma besta selvagem e era isso que se pedia. Então, eu grunhia! Mas nunca protegi os tímpanos, pois achava que não havia necessidade de estar em palco com umas borrachinhas nas orelhas que, apesar de me poderem proteger de possíveis danos irreversíves, me faziam sentir como um velhote debilitado, pois na verdade, não ouvia grande coisa do que se passava à minha volta! Depois veio a fase da guitarra, que nunca soube tocar mas onde fazia uns acordes de travessão que eram uma maravilha. Depois o baixo ou o bass guitar como dizem os entendidos. Eu é que nunca fui um entendido nessas coisas de tocar instrumentos. Mas fazia parte de uma banda (várias, na verdade), isso é que era importante. Mas por entre ensaios e concertos, amplificadores e berros, nunca meti na cabeça (literalmente) aquelas borrachinhas protectoras. Hoje em dia estou arrependido de não o ter feito, pois esta minha atitude impensada trouxe-me como recompensa o inevitável e completamente desnecessário apito constante, ou seja, tal como um bom carteiro, faça sol ou faça chuva, calor ou muito frio, na minha cabeça e nos meus ouvidos ouço sempre o anunciar do meio-dia de uma fábrica qualquer ou, em alternativa, uma sirene de alarme de um quartel de bombeiros. Constantemente. Desde há anos a esta parte. Todos os segundos desses anos! Caramba! Mas não estou a ficar surdo. Bom, não mais do que qualquer outra pessoa. Mas isto irrita um pouco. A música ajuda-me a aliviar esta condição.
Todo este palrar que aqui deixo surgiu-me devido a uma canção que descobri recentemente, graças à amabilidade deste blog (ou será blogue?), que a partilhou no seu formato video. Já tinha travado conhecimento com a parte visual, não me recordo exactamente onde, mas lembro-me que não tive oportunidade de conhecer o som que a acompanhava. Agora tive. Ainda bem. Tornei-me consumidor. Se por algum motivo me tivesse tornado surdo no passado, não teria tido a oportunidade de ser apresentado à voz de Yael Naim. Medo. Em defesa de toda a música que me faz respirar, espero que nunca me torne surdo!
Yael Naim - new soul
1 comentário:
são oito e pico da manha, cheguei agora ao trabalho com uma neura do tamanho sei lá do quê e eis que venho visitar-te, como faço todos os dias e eis que me ofereces esta delicia de música. seu já não gostasse tanto de ti, pensava que podia gostar mais ainda.
(agora um ralhetinho podi ser? VAI AO OTORRINO, cuida-te please)
:) LINDO
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